{"id":1,"date":"2020-03-24T14:59:05","date_gmt":"2020-03-24T17:59:05","guid":{"rendered":"http:\/\/loumodesto.com\/?p=1"},"modified":"2020-09-11T10:39:26","modified_gmt":"2020-09-11T13:39:26","slug":"ola-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loumodesto.com\/index.php\/2020\/03\/24\/ola-mundo\/","title":{"rendered":"A Porta do N\u00e3o Retorno \u2014 Dionne Brand"},"content":{"rendered":"\n<p> Tradu\u00e7\u00e3o: Lourdes Modesto<\/p>\n\n\n\n<p>BRAND, Dionne.&nbsp;<strong>A map to the door of no return<\/strong>: notes to belonging. [s.l.]: Doubleday Canada, 2001. p. 3\u20136. <\/p>\n\n\n\n<p> <em>Uma considera\u00e7\u00e3o circunstancial do estado das coisas<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"justificado\">Meu av\u00f4 disse que ele sabia de qual povo n\u00f3s viemos. Eu tagarelei todos os nomes que eu sabia. Yoruba? Ibo? Ashanti? Mandingo? Ele disse n\u00e3o para todos eles, dizendo que lembraria se escutasse o nome certo. Eu tinha treze anos. Estava ansiosa para que ele lembrasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu o azucrinei por dias. Ele me disse para que eu parasse de aborrec\u00ea-lo que assim ele lembraria. Ou para parar de aborrec\u00ea-lo, sen\u00e3o ele n\u00e3o lembraria. Eu o rondava em qualquer lugar em que ele estivesse. Eu o seguia perguntando-o se ele queria que eu fizesse isso ou aquilo para ele, limpar seus \u00f3culos, engraxar seus sapatos, trazer o seu ch\u00e1. Eu o estudava atentamente quando ele vinha para casa. Eu procurava nos pelos cinzentos do seu bigode por qualquer sinal que sugerisse que ele estava prestes a falar. Ele levantava seu jornal&nbsp;<em>Sunday Guardian&nbsp;<\/em>para bloquear a minha vis\u00e3o. Ele dizia x\u00f4!, mandando que eu encontrasse algum livro para ler ou trabalho para fazer. As vezes parecia que Papa estava prestes a se lembrar. Eu imaginava puxar a palavra da l\u00edngua dele se eu soubesse apenas a primeira s\u00edlaba.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu vasculhei a biblioteca San Fernando e n\u00e3o encontrei nenhuma outra lista de nomes naquela \u00e9poca. Sem poder encontrar outros nomes, eu s\u00f3 podia repetir aqueles que eu sabia, perguntando a ele se ele tinha certeza de que n\u00e3o era Yoruba, e Ashanti? Eu n\u00e3o conseguia me conter. Eu queria ser qualquer uma das duas. Eu tinha ouvido falar que eles eram um povo nobre. Mas tamb\u00e9m podia ser Ibo; eu tinha ouvido falar que eles eram gentis. E eu tinha seguido a guerra em Biafra. Eu estava do lado deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Papa nunca se lembrou. Toda semana eu perguntava se ele tinha lembrado. Toda semana ele me dizia n\u00e3o. Ent\u00e3o eu parei de perguntar. Ele estava desapontado. Eu estava desapontada. Depois daquilo n\u00f3s vivemos neste desapontamento m\u00fatuo. Havia uma rachadura entre n\u00f3s. Que levou a um tipo de estranhamento. Depois daquilo ele envelheceu. Eu desabrochei. Um pequeno espa\u00e7o se abriu em mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu carreguei esse espa\u00e7o comigo. Com o tempo este espa\u00e7o mudou de forma e aspecto de acordo com que as quest\u00f5es que ele evocava mudaram de sua apar\u00eancia e \u00e2ngulo. O nome do povo de que t\u00ednhamos vindo parou de ter import\u00e2ncia. Um nome teria conformado uma crian\u00e7a de treze anos. A quest\u00e3o, entretanto, era mais complicada, tinha mais nuances. Aquele momento entre meu av\u00f4 e eu, v\u00e1rias d\u00e9cadas atr\u00e1s, revelou uma fenda no mundo. Uma resposta fixa teria consertado esta fenda rapidamente. Eu teria seguido feliz com um simples nome. Eu poderia ter brincado com ele por alguns dias e ent\u00e3o deixado de lado.<\/p>\n\n\n\n<p>Esquecido. Mas a ruptura que esta troca com o meu av\u00f4 tinha exposto era maior que a necessidade de v\u00ednculos familiares. Era uma ruptura na hist\u00f3ria, uma ruptura na qualidade da exist\u00eancia. Tamb\u00e9m era uma ruptura f\u00edsica, uma ruptura geogr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p>Meu av\u00f4 e eu reconhecemos isso, e por isso n\u00f3s ficamos mutuamente desapontados. E \u00e9 por isso que ele n\u00e3o pode mentir para mim. Teria sido t\u00e3o f\u00e1cil ter confirmado qualquer um dos nomes que eu tinha proposto a ele. Mas ele n\u00e3o podia ter feito isso porque ele tamb\u00e9m defrontou este momento de ruptura. N\u00f3s n\u00e3o \u00e9ramos do lugar em que viv\u00edamos e n\u00e3o pod\u00edamos lembrar de onde \u00e9ramos ou quem n\u00f3s \u00e9ramos. Meu av\u00f4 n\u00e3o podia convocar a vis\u00e3o de uma paisagem ou de um povo que iria somar a um nome. E isso era profundamente perturbador.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o ter um nome para requerer era n\u00e3o ter passado; n\u00e3o ter passado apontava para a fissura entre o passado e o presente. Aquela fissura est\u00e1 representada na Porta do N\u00e3o Retorno aquele lugar de onde nossos ancestrais partiram de um mundo para outro; do Velho Mundo para o Novo Mundo. O lugar onde todos os nomes foram esquecidos e onde todos os come\u00e7os foram remodelados. Em algum sentido desolado, foi o lugar de cria\u00e7\u00e3o dos Negros na Di\u00e1spora do Novo Mundo ao mesmo tempo em que significou o fim dos come\u00e7os rastre\u00e1veis. Come\u00e7os que podem ser notados por meio de um nome ou do conjunto de algumas hist\u00f3rias familiares que se estendem mais longe no passado do que quinhentos e alguns anos, ou os tipos de come\u00e7os que podem ser expressos em um nome que sucessivamente delinearam um territ\u00f3rio ou uma ocupa\u00e7\u00e3o. Eu estou interessada em explorar a cria\u00e7\u00e3o deste local \u2014 a Porta do N\u00e3o Retorno, um local esvaziado de come\u00e7os \u2014 como um local de pertencimento ou n\u00e3o-pertencimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lourdes Modesto BRAND, Dionne.&nbsp;A map to the door of no return: notes to belonging. [s.l.]: Doubleday Canada, 2001. p. 3\u20136. Uma considera\u00e7\u00e3o circunstancial do estado das coisas Meu av\u00f4 disse que ele sabia de qual povo n\u00f3s viemos. Eu tagarelei todos os nomes que eu sabia. Yoruba? Ibo? Ashanti? Mandingo? 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