{"id":27,"date":"2020-03-24T19:43:01","date_gmt":"2020-03-24T22:43:01","guid":{"rendered":"http:\/\/loumodesto.com\/?p=27"},"modified":"2020-09-11T10:39:52","modified_gmt":"2020-09-11T13:39:52","slug":"em-busca-dos-jardins-das-nossas-maes-alice-walker","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loumodesto.com\/index.php\/2020\/03\/24\/em-busca-dos-jardins-das-nossas-maes-alice-walker\/","title":{"rendered":"Em busca dos jardins das nossas m\u00e3es \u2013 Alice Walker"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Lourdes Modesto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Walker, Alice. <strong>In search of our mother&#8217;s gardens<\/strong>. [s.l.]: Orion books, [s.d.], posi\u00e7\u00f5es 3282-3472. [Kindle ebook]<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Eu descrevi sua pr\u00f3pria natureza e temperamento. Disse como precisavam de uma vida maior para sua pr\u00f3pria express\u00e3o&#8230; Eu apontei que suas emo\u00e7\u00f5es haviam transbordado em caminhos que as dissiparam, em vez de nos canais apropriados. Eu falei, belamente pensei, sobre uma arte que nasceria, uma arte que abriria o caminho para mulheres como ela. Eu pedi para que ela desejasse e constru\u00edsse uma vida interior contra a vinda daquele dia&#8230; Eu cantei, com um estranho tremor na minha voz, uma promessa em can\u00e7\u00e3o.<\/p><cite>Jean toomer, &#8220;avey&#8221;<br>cane<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O poeta conversando com uma prostituta que cai no sono\nenquanto ele fala \u2013<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o poeta Jean Toomer caminhou pelo Sul no come\u00e7o dos anos 20, ele descobriu uma coisa curiosa: mulheres negras cuja espiritualidade era t\u00e3o intensa, t\u00e3o profunda, t\u00e3o <em>inconsciente<\/em>, que elas mesmas n\u00e3o tinham plena consci\u00eancia da riqueza que carregavam. Elas trope\u00e7avam cegamente pelas suas vidas: criaturas de corpos t\u00e3o abusados e mutilados, t\u00e3o e embara\u00e7adas e confusas pela dor, que elas se consideravam indignas at\u00e9 de f\u00e9. Nas abstra\u00e7\u00f5es abnegadas, seus corpos se tornavam mais do que \u201cobjetos sexuais\u201d para os homens que as usavam, mais que meras mulheres: elas se tornavam \u201cSantas\u201d. Em vez de serem percebidas como pessoas inteiras, seus corpos se tornavam santu\u00e1rios: suas mentes se tornavam templos dignos de adora\u00e7\u00e3o. Estas Santas loucas olhavam fixamente para o mundo, selvagens, como loucas \u2013 ou&nbsp; quietamente, com suicidas; e o \u201cDeus\u201d frente ao seu olhar era t\u00e3o mudo como uma grande rocha.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem eram estas Santas?\nEstas loucas, tolas, pobres mulheres?<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas delas, sem d\u00favida,\neram nossas m\u00e3es e av\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que elas pareciam\npara Jean Toomer, ainda no calor do Sul p\u00f3s-reconstru\u00e7\u00e3o: borboletas\nextraordin\u00e1rias presas num mel cruel, labutando para viver suas vidas numa era,\nnum s\u00e9culo, que n\u00e3o as reconhecia, exceto como \u201cas <em>mulas<\/em> do mundo\u201d. Elas tinham sonhos que ningu\u00e9m conhecia \u2013 nem elas\nmesmas, ao menos de forma coerente \u2013 e tinham vis\u00f5es que ningu\u00e9m entendia. Elas\nvagavam ou sentavam pela ro\u00e7a murmurando can\u00e7\u00f5es de ninar para fantasmas, e\ndesenhando a m\u00e3e de Cristo com carv\u00e3o nas paredes dos f\u00f3runs. <\/p>\n\n\n\n<p>Elas for\u00e7avam suas mentes\npara fora dos seus corpos e seus esp\u00edritos vigorosos buscavam se levantar do\nch\u00e3o duro de barro vermelho, como fr\u00e1geis redemoinhos. E quando aqueles fr\u00e1geis\nredemoinhos caiam, em part\u00edculas despeda\u00e7adas, sobre o solo, ningu\u00e9m lamentava.\nAo contr\u00e1rio, homens acendiam velas para celebrar o vazio que permanecera, como\nas pessoas que entram num espa\u00e7o bonito, mas vazio, fazem, buscando ressuscitar\num Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossas m\u00e3es e av\u00f3s,\nalgumas delas: dan\u00e7avam m\u00fasicas que ainda n\u00e3o tinham sido escritas. E elas esperaram.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Elas esperaram pelo dia em\nque a coisa desconhecida dentro delas seria compreendida, mas imaginaram, em\nalgum lugar da sua escurid\u00e3o, que no dia da sua revela\u00e7\u00e3o, elas j\u00e1 estariam\nmortas h\u00e1 muito tempo. Entretanto, para Toomer elas caminhavam, at\u00e9 mesmo\ncorriam, em <em>slow motion<\/em>. Porque elas\nn\u00e3o iam imediatamente para algum lugar e o futuro n\u00e3o estava ainda ao alcance\ndelas. E homens tomaram nossas m\u00e3es e av\u00f3s, \u201cmas n\u00e3o tiveram nenhum prazer nisso.\u201d\nT\u00e3o complexa era a paix\u00e3o e calma delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Toomer, elas permaneceram\ndesocupadas e inativas como campos de outono, a colheita sempre distante: e ele\nas viu entrar em casamentos sem amor, sem alegria; e tornarem-se prostitutas,\nsem resist\u00eancia; e tornarem-se m\u00e3es, sem se preencher.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois estas, nossas av\u00f3s e\nm\u00e3es, n\u00e3o eram Santas, mas Artistas; levadas \u00e0 loucura e ao entorpecimento\nporque as fontes de criatividade dentro delas n\u00e3o podiam ser extravasadas. Elas\neram Criadoras que viviam em desperd\u00edcio espiritual por serem t\u00e3o ricas em\nespiritualidade \u2013 que \u00e9 a base da Arte \u2013 que lidar com seus talentos indesejado\ne sem uso levou-as a loucura. Jogar fora esta espiritualidade era a tentativa\npat\u00e9tica para aliviar o peso das suas almas, para que seus corpos cansados e\nsexualmente abusados pudessem aguentar. <\/p>\n\n\n\n<p>O que significava ser uma\nartista negra no tempo das nossas av\u00f3s? E no tempo das nossas bisav\u00f3s? \u00c9 uma\npergunta cuja resposta \u00e9 cruel o suficiente para parar o cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Voc\u00ea teve uma tatarav\u00f3\ngenial que morreu sob algum olhar branco ignorante e depravado? Ou que era\nconvidada a fazer biscoitos para um vagabundo pregui\u00e7oso enquanto ela clamava\nem sua alma a vontade de fazer aquarelas do p\u00f4r do sol ou da chuva caindo nas\npastagens verdes e calmas? Ou que o corpo foi destru\u00eddo e for\u00e7ado a ter\ncrian\u00e7as (que eram vendidas e levadas para longe delas mais que frequentemente)\n\u2013 oito, dez, quinze, vinte crian\u00e7as \u2013 quando sua \u00fanica alegria era a ideia de\nmodelar figuras heroicas em pedra ou em barro?<\/p>\n\n\n\n<p>Como a criatividade da\nmulher negra deveria permanecer negra, ano ap\u00f3s ano, s\u00e9culo ap\u00f3s s\u00e9culo,\nquando, na maior parte do tempo em que pessoas negras estiveram na Am\u00e9rica, uma\npessoa negra lendo ou escrevendo era crime? E a liberdade de pintar, esculpir,\nexpandir a mente com a\u00e7\u00e3o n\u00e3o existia. Imagine, se voc\u00ea puder imaginar, o que\ndeve ter acontecido se cantar, tamb\u00e9m, tivesse sido proibido por lei. Ouvir as\nvozes de Bessie Smith, Billie Holiday, Nina Simone, Roberta Flack e Aretha\nFranklin, entre outras, e imagine essas vozes abafadas para sempre. E ent\u00e3o\nvoc\u00ea poder\u00e1 come\u00e7ar a entender as vidas das nossas \u201cloucas\u201d, \u201csantificadas\u201d\nm\u00e3es e av\u00f3s. A agonia das vidas das mulheres que podem ter sido poetas,\nnovelistas, ensa\u00edstas e contistas (durante s\u00e9culos), que morreram com seus dons\npresos dentro delas.<\/p>\n\n\n\n<p>E, se esse \u00e9 o fim da\nhist\u00f3ria, n\u00f3s ter\u00edamos por que chorar na minha par\u00e1frase do grande poema de\nOkot p\u2019Bitek:<\/p>\n\n\n\n<p>Oh,\nminhas comadres<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos\ntodas chorar juntas!<\/p>\n\n\n\n<p>Venham<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos\nlamentar a morte da nossa m\u00e3e,<\/p>\n\n\n\n<p>A\nmorte de uma Rainha<\/p>\n\n\n\n<p>A\ncinza produzida<\/p>\n\n\n\n<p>Por\numa grande fogueira!<\/p>\n\n\n\n<p>Oh,\nestes lares est\u00e3o totalmente mortos<\/p>\n\n\n\n<p>Fechem\nos port\u00f5es<\/p>\n\n\n\n<p>Com\nespinhos <em>lacari<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Porque\nnossa m\u00e3e<\/p>\n\n\n\n<p>A\ncriadora do trono se foi!<\/p>\n\n\n\n<p>E\ntodas as jovens mulheres<\/p>\n\n\n\n<p>Pereceram\nna selva<\/p>\n\n\n\n<p>Mas este n\u00e3o \u00e9 o final da\nhist\u00f3ria, pois nem todas as jovens mulheres \u2013 nossas m\u00e3es e av\u00f3s, <em>n\u00f3s mesmas<\/em> \u2013 pereceram na selva. E se\nnos perguntarmos o porqu\u00ea, e buscarmos pela resposta, n\u00f3s saberemos,\nultrapassando todos os esfor\u00e7os de apagar da nossa mente, exatamente quem, e de\nqu\u00ea, n\u00f3s mulheres negras Americanas somos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo, talvez o mais\npat\u00e9tico, o mais incompreendido, pode mostrar uma gota do trabalho das nossas\nm\u00e3es: Phillis Wheatley, uma escrava de 1700.<\/p>\n\n\n\n<p>Virginia Woolf, no seu\nlivro <em>Um teto todo seu<\/em>, escreveu que para que uma mulher escreva fic\u00e7\u00e3o\nela deve ter, certamente, duas coisas: um teto todo seu (com chave e fechadura)\ne dinheiro o suficiente para se sustentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o o que dizer de\nPhillis Wheatley, uma escrava, que n\u00e3o possu\u00eda nem a si mesma? Uma enferma e fr\u00e1gil\nmenina negra que \u00e0s vezes precisava at\u00e9 de algu\u00e9m que a servisse \u2013 t\u00e3o prec\u00e1ria\nera sua sa\u00fade \u2013 e que, se tivesse sido branca, seria facilmente considerada\nintelectualmente superior a todas as mulheres e \u00e0 maioria dos homens da\nsociedade de sua \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Virginia Woolf escreveu\nainda mais, n\u00e3o falando da nossa Phillis, que \u201cqualquer mulher nascida com um\ndom no s\u00e9culo XVI [insira \u201cs\u00e9culo XVIII\u201d, insira \u201cmulher negra\u201d, insira\n\u201cnascida ou tornada escrava\u201d] teria certamente enlouquecido, atirado em si\nmesma, ou terminado seus dias numa cabana solit\u00e1ria fora da vila, meio bruxa,\nmeio feiticeira [insira \u201cSanta\u201d], temida e alvo de zombaria. Porque \u00e9 preciso\npouca habilidade e psicologia para ter certeza que uma menina altamente dotada\nque tentou usar seu dom para poesia terminaria t\u00e3o frustrada e impedida por\ninstintos divergentes [adicione \u201ccorrentes, armas, o chicote, ter seu corpo\ncomo posse de outrem, submiss\u00e3o a uma religi\u00e3o alheia\u201d], que ela certamente\nperderia sua sa\u00fade e sua sanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>As palavras-chave, no que\nse relacionam a Phillis, s\u00e3o \u201cinstintos contr\u00e1rios\u201d. Pois quando n\u00f3s lemos a\npoesia de Phillis Wheatley \u2013 como quando n\u00f3s lemos os romances de Nella Larsen\nou a autobiografia que soa estranhamente falsa da escritora negra mais livre de\ntodas, Zora Hurston \u2013 a evid\u00eancia do \u201cinstinto contr\u00e1rio\u201d est\u00e1 por toda parte.\nSua lealdade estava completamente dividida, e da mesma forma, sem\nquestionamento, sua mente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como poderia ter sido\nde outra forma? Capturada aos sete anos, uma escrava de uma fam\u00edlia rica, brancos\nador\u00e1veis que incutiram nela a \u201cselvageria\u201d africana de onde eles a\n\u201cresgataram\u201d&#8230; imagino se ela era capar de lembrar da sua terra natal da forma\nque ela tinha conhecido ou da forma que sua terra realmente era.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, por ela tentar\nusar seu dom da poesia em um mundo que tinha feito dela uma escrava, ela era\n\u201ct\u00e3o frustrada e perturbada por &#8230; instintos contr\u00e1rios, que ela &#8230; perdeu\nsua sa\u00fade&#8230;\u201d. Nos \u00faltimos anos da sua breve vida, sobrecarregada com a\nnecessidade de expressar seu dom e com uma \u201cliberdade\u201d sem dinheiro e sem\namigos e v\u00e1rias crian\u00e7as para quem ela devia trabalhar vigorosamente para\nalimentar, ela perdeu sua sa\u00fade, certamente. Sofrendo de m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o e\nnegligenciada, al\u00e9m de padecer de sabe se l\u00e1 quais agonias mentais, Phillis\nWheatley morreu.<\/p>\n\n\n\n<p>A negra, raptada,\nescravizada Phillis foi t\u00e3o despeda\u00e7ada pelos \u201cinstintos contr\u00e1rios\u201d que sua\ndescri\u00e7\u00e3o da \u201cDeusa\u201d \u2013 como ela chamava poeticamente a Liberdade que n\u00e3o teve \u2013\n\u00e9 ironicamente, cruelmente humor\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>E, de fato, manteve\nPhillis ridicularizada por mais de um s\u00e9culo. Ela \u00e9 normalmente lida para\nperpetuar a mem\u00f3ria de Phillis como a de uma mulher tola. Ela escreveu:<\/p>\n\n\n\n<p>A Deusa vem, ela se move divinamente c\u00e2ndida,<\/p>\n\n\n\n<p>Azeitonas e louros\namarram seu cabelo <em>dourado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde quer que\nbrilhe essa nativa dos c\u00e9us,<\/p>\n\n\n\n<p>A Deusa vem, ela\nse move divinamente c\u00e2ndida,<\/p>\n\n\n\n<p>Azeitonas e louros\namarram seu cabelo <em>dourado<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>In\u00fameros encantos\ne gra\u00e7as nascem. [Meu it\u00e1lico]<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que Phillis, a\nescrava, penteava o cabelo da \u201cDeusa\u201d todas as manh\u00e3s; talvez antes de trazer o\nleite ou preparar o almo\u00e7o da sua sinh\u00e1. Ela pegava suas met\u00e1foras da \u00fanica\ncoisa que via como estando acima de todos os outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabendo o que sabemos\nhoje, nos perguntamos: \u201cComo ela conseguiu?\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Mas finalmente, Phillis,\nn\u00f3s entendemos. Nenhum riso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 suas linhas r\u00edgidas, dif\u00edceis,\nambivalente nos \u00e9 for\u00e7ado. N\u00f3s sabemos hoje que voc\u00ea n\u00e3o foi uma idiota ou uma\ntraidora; apenas uma pequena menina negra adoentada, tirada de sua casa e do\nseu pa\u00eds e escravizada; uma mulher que ainda lutava para cantar a can\u00e7\u00e3o que\nfoi seu dom, mesmo que numa terra de b\u00e1rbaros que te louvavam por sua l\u00edngua\nconfusa. Voc\u00ea n\u00e3o cantou muito, mas manteve vivo, como muitos dos seus\nancestrais, <em>a no\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres negras s\u00e3o\nchamadas, no folclore que aptamente identifica o status de algu\u00e9m na sociedade,\ncomo \u201ca <em>mula <\/em>do mundo\u201d, porque nos foi dado o fardo que todas as outras pessoas\n\u2013 quaisquer outras pessoas \u2013 se recusaram carregar. Tamb\u00e9m nos chamam de\n\u201cMatriarcas\u201d \u201cSupermulheres\u201d e \u201cVadias M\u00e1s e Cru\u00e9is\u201d. Sem mencionar\n\u201cCastradoras\u201d e \u201cMam\u00e3es de Sapphire\u201d. Quando clamamos por compreens\u00e3o, nosso\ncar\u00e1ter foi distorcido; quando pedimos que simplesmente se importassem, nos\nderam apelos emocionalmente vazios e depois nos jogaram no canto mais\nesquecido. Quando pedimos amor, nos foi dado filhos. Ou seja, mesmo nossos\npresentes mais singelos, nossas labutas de fidelidade e amor, foram silenciados\nem nossas gargantas. Ser uma artista negra, mesmo hoje em dia, rebaixa nosso\nstatus de muitas formas, em vez de aument\u00e1-lo: e mesmo assim, seremos artistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, n\u00f3s devemos nos\nimpor e buscar e identificar com nossas vidas a criatividade vibrante que\nalgumas das nossas bisav\u00f3s n\u00e3o tiveram permiss\u00e3o de conhecer. Eu pontuo <em>algumas<\/em>\ndelas porque \u00e9 bem sabido que a maioria das nossas bisav\u00f3s sabiam, mesmo sem\n\u201csaber\u201d, a realidade da sua espiritualidade, mesmo que elas n\u00e3o pudessem reconhec\u00ea-la\npara al\u00e9m das can\u00e7\u00f5es na igreja \u2013 e elas nunca tiveram sequer inten\u00e7\u00e3o de\ndesistir desta espiritualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como elas conseguiram \u2013\nos milh\u00f5es de mulheres que n\u00e3o eram Phillis Wheatley, ou Lucy Terry, ou Frances\nHarper, ou Zora Hurston, ou Nella Larsen, ou Bessie Smith; ou Elizabeth\nCatlett, ou Katherine Dunham tamb\u00e9m \u2013 me leva ao t\u00edtulo desse ensaio, \u201cEm busca\ndos jardins das nossa m\u00e3es\u201d, que \u00e9 uma quest\u00e3o pessoal ao mesmo tempo que \u00e9\ncompartilhada, no tema e significado, por todas n\u00f3s. Eu descobri, enquanto\npensava a respeito do mundo de longo alcance que \u00e9 a mulher negra criativa, que\nfrequentemente a resposta mais verdadeira \u00e0 quest\u00e3o que realmente importa, pode\nser encontrada bem perto.<\/p>\n\n\n\n<p>No final do s\u00e9culo XX minha\nm\u00e3e fugiu de casa para casar-se com meu pai. Casamento, e tamb\u00e9m fugir de casa,\nera esperado de meninas de dezessete anos. Aos vinte anos, ela era m\u00e3e de duas\ncrian\u00e7as e estava gr\u00e1vida de uma terceira. Cinco crian\u00e7as depois, eu nasci. E\nfoi assim que eu conheci minha m\u00e3e: era uma mulher grande, suave, de olhos\namorosos que raramente ficava impaciente. Seu temperamento r\u00e1pido e violento s\u00f3\naparecia algumas vezes por ano, quando ela brigava com algum senhorio branco\nque sugeria que os filhos dela n\u00e3o deveriam ir para a escola.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela fez todas nossas\nroupas, at\u00e9 os macac\u00f5es dos meus irm\u00e3os. Ela fez todas as toalhas e len\u00e7\u00f3is que\nusamos. Ela passava o ver\u00e3o fazendo conservas de vegetais e frutas. Ela passava\nas tardes de inverno fazendo colchas para cobrir todas as nossas camas.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o \u201cexpediente\u201d, ela trabalhava ao lado \u2013 n\u00e3o atr\u00e1s \u2013 do meu pai nos campos. Seu dia come\u00e7ava antes do sol nascer e n\u00e3o terminava at\u00e9 tarde da noite. N\u00e3o havia momento para ela se sentar sem ser perturbada, para desenrolar seus pr\u00f3prios pensamentos pessoais; n\u00e3o havia tempo livre de interrup\u00e7\u00f5es \u2013 de trabalho ou dos pedidos barulhentos dos seus muitos filhos. E mesmo assim, foi na minha m\u00e3e \u2013 e todas as nossas m\u00e3es que n\u00e3o eram famosas \u2013 que eu fui buscar o segredo que alimentou aquele esp\u00edrito criativo amorda\u00e7ado e frequentemente mutilado, mas vibrante, que as mulheres negras herdaram e que ressoa em lugares ermos e improv\u00e1veis at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas quando, voc\u00ea me\npergunta, minha m\u00e3e sobrecarregada tinha tempo para pensar e se importar em\nalimentar seu esp\u00edrito criativo?<\/p>\n\n\n\n<p>A resposta \u00e9 t\u00e3o simples\nque muitos de n\u00f3s passaram anos encontrando. N\u00f3s procuramos no alto, quando\ndev\u00edamos ter procurado em todos os lugares poss\u00edveis. <\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo: no Instituto\nSmithsoniano em Washigton, D.C, est\u00e1 uma colcha que n\u00e3o parece com nenhuma\noutra no mundo. Em imagens caprichosas e inspiradas, ao mesmo tempo que simples\ne familiares, a colcha retrata a hist\u00f3ria da Crucifica\u00e7\u00e3o. Ela \u00e9 considerada\nrara, de pre\u00e7o imensur\u00e1vel. Embora ela n\u00e3o siga nenhum padr\u00e3o de costura de\ncolchas, apesar de ser feitas de trapos singelos, \u00e9 obviamente o trabalho de\numa pessoa de imagina\u00e7\u00e3o poderosa e profunda espiritualidade. Abaixo dessa\ncolcha eu vi uma nota que dizia que ela tinha sido feita por \u201cuma mulher negra\nan\u00f4nima no Alabama, cem anos atr\u00e1s.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Se pud\u00e9ssemos localizar\nessa mulher negra \u201can\u00f4nima\u201d do Alabama, ela seria uma das nossas av\u00f3s \u2013 uma\nartista que deixou sua marca com os \u00fanicos materiais que ela podia bancar, e no\n\u00fanico meio que a sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade permitia que ela usasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Como Virginia Woolf escreveu, tamb\u00e9m, em <em>Um teto todo seu:<\/em><\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>G\u00eanios de toda forma devem ter existido entre as mulheres da mesma forma que devem ter existido na classe trabalhadora [Mude para \u201cescravas\u201d e \u201cas esposas e filhas dos arrendat\u00e1rios.\u201d] Eventualmente uma Emily Bronte ou um Robert Burns [mude para \u201cuma Zora Hurston ou um Richard Wright\u201d] resplandece e prova sua presen\u00e7a. Mas certamente nunca foi marcado no papel. Quando, entretanto, algu\u00e9m l\u00ea sobre uma bruxa sendo afogada, uma mulher possu\u00edda por dem\u00f4nios [ou \u201cSantidade\u201d], ou uma feiticeira vendendo ervas [ nossos raizeiros], ou mesmo um homem not\u00e1vel que tinha m\u00e3e, ent\u00e3o acho que estamos no rastro de um romancista perdido, um poeta suprimido, ou uma Jane Austen muda e ingl\u00f3ria&#8230; Sem d\u00favida, eu me arriscaria a adivinhar que An\u00f4nimo, que escreveu muitos poemas sem assin\u00e1-los, era, frequentemente, uma mulher&#8230; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>E assim nossas m\u00e3es\ntamb\u00e9m, mais anonimamente que n\u00e3o, lidaram com sua fa\u00edsca criativa, a semente\nda flor que elas nunca imaginaram ver: ou como uma carta selada que elas n\u00e3o\npodiam ler perfeitamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim tamb\u00e9m \u00e9,\ncertamente, com minha pr\u00f3pria m\u00e3e. Ao contr\u00e1rio das can\u00e7\u00f5es de \u201cMa\u201d Rainey, que\nmantiveram o nome da sua criadora mesmo enquanto saiam da boca de Bessie Smith,\nnenhuma can\u00e7\u00e3o carregar\u00e1 o nome da minha m\u00e3e. Mesmo assim tantas das hist\u00f3rias\nque eu escrevo, que todas n\u00f3s escrevemos, s\u00e3o as hist\u00f3rias das nossas m\u00e3es. S\u00f3\nrecentemente eu entendi isso: que com o passar dos anos em que eu escutei as hist\u00f3rias\nque a minha m\u00e3e contava sobre sua vida, eu n\u00e3o s\u00f3 absorvi as hist\u00f3rias, mas\nalgo na maneira em que ela falava, algo da urg\u00eancia que envolvia que suas\nhist\u00f3rias \u2013 assim como sua vida \u2013 deveriam ser gravadas. \u00c9 provavelmente por\nessa raz\u00e3o que tanto do que eu escrevi seja sobre personagens cujos semelhantes\nda vida real s\u00e3o t\u00e3o mais velhos que eu.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a conta\u00e7\u00e3o dessas\nhist\u00f3rias, que vieram t\u00e3o naturalmente dos l\u00e1bios da minha m\u00e3e como sua\nrespira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi a \u00fanica forma que minha m\u00e3e se mostrou como artista. As\nhist\u00f3rias, tamb\u00e9m, estavam sujeitas \u00e0 distra\u00e7\u00e3o, a morrer sem conclus\u00e3o. Os\njantares tinham que ser feitos, o algod\u00e3o devia ser colhido antes das grandes\nchuvas. A artista que minha m\u00e3e foi e \u00e9 se desvelou para mim s\u00f3 depois de\nmuitos anos. E isto \u00e9 o que eu notei, finalmente:<\/p>\n\n\n\n<p>Como Mem, personagem em <em>A\nterceira vida de Grange Copeland<\/em>, minha m\u00e3e enfeitava com flores qualquer\nbarraco em que n\u00f3s \u00e9ramos for\u00e7ados a morar. E n\u00e3o s\u00f3 a t\u00edpica prateleira\nesfarrapada de z\u00ednias. Ela plantava jardins ambiciosos \u2013 e ainda planta \u2013 com\nmais de cinquenta variedades de plantas que floresciam do come\u00e7o de Mar\u00e7o at\u00e9 o\nfim de Novembro. Antes de sair de casa para ir para os campos, ela regava as\nflores, aparava a grama, e arranjava novos canteiros. Quando ela voltava dos\ncampos ela ia dividir bulbos, cavar, arrancar e replantar rosas ou podar galhos\ndos seus arbustos mais altos ou das \u00e1rvores \u2013 at\u00e9 que a noite chegasse e\nestivesse escuro demais para ver.<\/p>\n\n\n\n<p>O que quer que ela\nplantasse crescia como m\u00e1gica, e sua fama de cultivadora de flores se espalhou\npor tr\u00eas pa\u00edses. Por causa da criatividade dela com as flores, mesmo as minhas\nmem\u00f3rias de pobreza s\u00e3o vistas por uma moldura de flores \u2013 girass\u00f3is, pet\u00fanias,\nrosas, d\u00e1lias, fors\u00edtias, espir\u00e9ias, delf\u00ednios, verbenas&#8230; e assim por diante.<\/p>\n\n\n\n<p>E eu lembro das pessoas\nvindo para o quintal da minha m\u00e3e para receberem mudas das flores delas; eu\nou\u00e7o de novo os elogios que choviam nela porque, independente de qu\u00e3o rochoso\nera o solo em que ela chegava, transformava em um jardim. Um jardim com cores\nt\u00e3o brilhantes, com um design t\u00e3o original e t\u00e3o magn\u00edfico, cheio de vida e\ncriatividade, que at\u00e9 hoje as pessoas dirigem por nossa casa na Georgia \u2013\nperfeitos estranhos e estranhos imperfeitos \u2013 e pedem para posar ou andar entre\na arte da minha m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu percebo que s\u00f3 quando\nminha m\u00e3e est\u00e1 trabalhando nas suas flores que ela fica t\u00e3o radiante ao ponto\nde ficar quase invis\u00edvel \u2013 exceto como Criadora: m\u00e3os e olhos. Ela est\u00e1\nenvolvida com o trabalho que a sua alma deve ter. Organizando o universo como a\nimagem da sua concep\u00e7\u00e3o pessoal de Beleza.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu rosto, enquanto ela\nprepara a Arte que \u00e9 seu dom, \u00e9 o legado de respeito que ela deixa para mim,\npor tudo que ilumina e acalenta sua vida. Ela entrega respeito pelas\npossibilidades \u2013 e o desejo de agarr\u00e1-las.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ela, t\u00e3o limitada e\nimpedida de tantas formas, ser uma artista ainda \u00e9 uma parte di\u00e1ria da sua\nvida. Essa habilidade de seguir firme, de formas t\u00e3o simples, \u00e9 o trabalho que\nas mulheres negras tem feito por tanto tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse poema n\u00e3o \u00e9 o\nsuficiente, mas \u00e9 alguma coisa, para a mulher que, literalmente, cobriu os\nburacos de nossos muros com girass\u00f3is:<\/p>\n\n\n\n<p>Eram\nmulheres ent\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>A\ngera\u00e7\u00e3o da minha mam\u00e3e<\/p>\n\n\n\n<p>Roucas\nde voz \u2013 Firmes de<\/p>\n\n\n\n<p>Passo<\/p>\n\n\n\n<p>Com\npunhos e com<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3os<\/p>\n\n\n\n<p>Como\nderrubaram<\/p>\n\n\n\n<p>Portas<\/p>\n\n\n\n<p>E\npassaram ferro em<\/p>\n\n\n\n<p>Engomadas<\/p>\n\n\n\n<p>Camisas<\/p>\n\n\n\n<p>Como\nconduziram<\/p>\n\n\n\n<p>Ex\u00e9rcitos<\/p>\n\n\n\n<p>Generais\nEncurralados<\/p>\n\n\n\n<p>Por\ncampos<\/p>\n\n\n\n<p>Minados<\/p>\n\n\n\n<p>Cozinhas<\/p>\n\n\n\n<p>Engatilhadas<\/p>\n\n\n\n<p>Para\ndescobrir livros<\/p>\n\n\n\n<p>Escrivaninhas<\/p>\n\n\n\n<p>Um\nlugar para n\u00f3s<\/p>\n\n\n\n<p>Como\nelas sabiam o que n\u00f3s<\/p>\n\n\n\n<p><em>Dev\u00edamos\n<\/em>saber<\/p>\n\n\n\n<p>Sem\nconhecer uma p\u00e1gina<\/p>\n\n\n\n<p>Sequer<\/p>\n\n\n\n<p>Por\nelas mesmas.<\/p>\n\n\n\n<p>Guiada por minha heran\u00e7a\nde amor e beleza e pelo respeito pela for\u00e7a \u2013 em busca do jardim da minha m\u00e3e,\nencontrei o meu pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<p>E talvez na \u00c1frica, mais\nde duzentos anos atr\u00e1s, tenha existido tal m\u00e3e; talvez ela tenha pintado\nenfeites vivos e ousados, de laranja, amarelo e verde, nas paredes da sua\ncabana; talvez ela tenha cantado \u2013 numa voz como a de Roberta Flack \u2013 docemente\npelas quadras da sua vila; talvez ela tenha tecido os mais belos tapetes ou\ncontado as&nbsp; hist\u00f3rias mais engenhosas de\ntodas as vilas de gri\u00f4s. Talvez ela tenha sido uma poeta \u2013 apesar de somente o\nnome da sua filha esteja assinado nos poemas que conhecemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a m\u00e3e de Phillis\nWheatley tamb\u00e9m fosse uma artista.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, para al\u00e9m da vida biol\u00f3gica de Phillis Wheatley, a assinatura da m\u00e3e dela esteja evidente. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lourdes Modesto Walker, Alice. In search of our mother&#8217;s gardens. [s.l.]: Orion books, [s.d.], posi\u00e7\u00f5es 3282-3472. [Kindle ebook] Eu descrevi sua pr\u00f3pria natureza e temperamento. Disse como precisavam de uma vida maior para sua pr\u00f3pria express\u00e3o&#8230; Eu apontei que suas emo\u00e7\u00f5es haviam transbordado em caminhos que as dissiparam, em vez de nos canais apropriados. 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