{"id":59,"date":"2020-03-26T00:21:00","date_gmt":"2020-03-26T03:21:00","guid":{"rendered":"http:\/\/loumodesto.com\/?p=59"},"modified":"2020-09-11T10:40:11","modified_gmt":"2020-09-11T13:40:11","slug":"sobre-a-poesia-dionne-brand","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/loumodesto.com\/index.php\/2020\/03\/26\/sobre-a-poesia-dionne-brand\/","title":{"rendered":"Sobre a poesia &#8211; dionne brand"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Tradu\u00e7\u00e3o: Lourdes Modesto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>BRAND, Dionne. <strong>Bread out of stone<\/strong>: recollections on sex, recognitions, race, dreaming and politics. [s.l.]: Vintade Canada, 1998. p. 195-196. <\/p>\n\n\n\n<p> Toda palavra converge em si mesma, toda palavra cai ap\u00f3s ser dita. Nenhuma das respostas que eu dei durante os anos \u00e9 a verdadeira. Aquelas respostas foram dadas como uma guerrilheira com seu rosto num len\u00e7o, seus olhos im\u00f3veis. Ela est\u00e1 im\u00f3vel, pronta para um movimento r\u00e1pido, mas im\u00f3vel. Suas botas firmes, a areia embaixo das botas se espalha e empoeira. Mas os olhos dela est\u00e3o im\u00f3veis. E eu tenho respondido como um prisioneiro responde \u00e0 um interrogat\u00f3rio, contando apenas o suficiente para acalmar o interrogador e s\u00f3 o suficiente para tra\u00e7ar uma hist\u00f3ria para que ela possa repetir sem deixar nada de fora e sem se contradizer da pr\u00f3xima vez que tiver que contar de novo. Eu tenho dito a eles as mesmas coisas de novo e de novo, e eu direi a eles de novo quando eles perguntarem porque eles s\u00f3 perguntam as mesmas coisas, como de onde eu sou e se eu os odeio.<br>Mas se eu pudesse me dar um momento, eu diria que tem sido um al\u00edvio escrever poesia, tem sido um espa\u00e7o para que eu viva.<br>Eu vivi momentos em que a vida do meu povo era t\u00e3o dif\u00edcil de suportar que a poesia parecia in\u00fatil, e eu digo que n\u00e3o h\u00e1 momento em que eu n\u00e3o pense nisso agora. \u00c0s vezes tem sido mais crucial ceifar a grama alta num campo em Marigot; \u00e0s vezes tem sido mais importante entender como uma mulher sem documentos em Toronto pode ter seu beb\u00ea sem ser pega e deportada; \u00e0s vezes tem sido mais \u00fatil organizar uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente a esta\u00e7\u00e3o policial nas ruas Bay e College. Frequentemente n\u00e3o h\u00e1 qualquer raz\u00e3o para escrever poesia. H\u00e1 dias em que eu n\u00e3o consigo pensar em nenhuma pequena raz\u00e3o para escrever sobre esta vida.<br>H\u00e1 uma fotografia minha de quando eu tinha quatro anos. Eu estou de p\u00e9 ao lado da minha irm\u00e3zinha e da minha prima. Minha irm\u00e3 mais velha est\u00e1 na foto tamb\u00e9m. Eu n\u00e3o pare\u00e7o comigo mesma, exceto por minhas pernas, que eram curvas e ainda s\u00e3o. Minha irm\u00e3zinha est\u00e1 chorando, seus dedos em sua boca, e minha prima parece atordoada, como se ela tivesse sido jogada na foto. Minha irm\u00e3 mais velha est\u00e1 alta e esbelta, indicando o glamour que viria descrever a sua vida. Ela parece Nancy Wilson. Sapatos pretos de vinil, vestido branco com decote canoa. Eu estou olhando para a c\u00e2mera, minha boca aberta. Estou segurando um chocalho, balan\u00e7ando na foto, para que a minha irm\u00e3zinha parasse de chorar. Eu pare\u00e7o estar tentando fazer com que essa foto funcione. Eu lembro do momento, de conscientemente me aprontar, segurar o chocalho, ser chamada para o ato, dizer para a minha irm\u00e3zinha n\u00e3o chore, veja, n\u00e3o chore. Meus olhos na foto n\u00e3o s\u00e3o como os de uma garotinha, eles parecem sensatos, im\u00f3veis. Os olhos da minha irm\u00e3zinha est\u00e3o lacrimejantes; os da minha prima, assustados; os da minha irm\u00e3 mais velha, tristes. Os meus, im\u00f3veis. Observando. Eu lembro de observar. De saber que esta era uma ocasi\u00e3o de cuidar de n\u00f3s mesmas e de segurar o chocalho para que a minha irm\u00e3 n\u00e3o chorasse. Eu s\u00f3 reconhe\u00e7o minhas pernas e meus olhos. Im\u00f3veis. Atentos.&nbsp;<br>Se eu pudesse ter um segundo. Sacudindo a areia dos meus sapatos. A poesia est\u00e1 aqui, exatamente&nbsp;<em>aqui.&nbsp;<\/em>Algo lutando contra a forma como vivemos, algo perigoso, algo honesto. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tradu\u00e7\u00e3o: Lourdes Modesto BRAND, Dionne. Bread out of stone: recollections on sex, recognitions, race, dreaming and politics. [s.l.]: Vintade Canada, 1998. p. 195-196. Toda palavra converge em si mesma, toda palavra cai ap\u00f3s ser dita. Nenhuma das respostas que eu dei durante os anos \u00e9 a verdadeira. 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